Denúncias de irregularidades no gabinete do presidente da Câmara dos Deputados amplificam crise política na Paraíba e em Brasília

Uma investigação jornalística publicada pelo Metrópoles e amplificada pela Folha de S.Paulo revelou que a Câmara dos Deputados pagou R$ 807,5 mil, entre 2017 e 2025, à fisioterapeuta Gabriela Batista Pagidis, lotada como secretária parlamentar no gabinete do presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), sem indícios de que ela exercesse as funções do cargo.
Além de Gabriela, outras duas servidoras — Louise Lacerda e Monique Magno — foram identificadas como “funcionárias fantasmas”, com rotinas incompatíveis com a jornada de 40 horas semanais exigida. O caso, que também envolve a ex-sogra do pai de Motta, Maria do Carmo Brito, expõe falhas na fiscalização da Câmara e alimenta críticas ao centrão, em um momento de alta rejeição de Motta
Gabriela Pagidis, 30 anos, foi nomeada em 1º de junho de 2017 no gabinete de Motta, com salários que variaram de R$ 1.550,66 a R$ 16.714,06.O Metrópoles acompanhou sua rotina, constatando que ela trabalha em duas clínicas de fisioterapia em Brasília — Instituto Costa Saúde (segundas e quartas) e Centro Clínico Bandeirantes (terças e quintas) — e frequenta academia e o zoológico em horários de expediente.
Entre 2014 e 2019, ela cursou fisioterapia em período integral na UnB, tornando inviável a conciliação com o cargo parlamentar. Antes de Motta, Gabriela esteve lotada no gabinete de Wilson Filho (Republicanos-PB), atual secretário de Educação da Paraíba, acumulando R$ 890,5 mil em salários desde 2014.
Louise Lacerda, filha do ex-vereador Marcílio Lacerda (Republicanos-PB), é estudante de medicina em período integral na Faculdade Nova Esperança, em João Pessoa, desde 2018, com salário atual de R$ 2.800 mais R$ 1.800 em auxílios.
Monique Magno, assistente social na prefeitura de João Pessoa desde 2021, com jornada de 30 horas semanais, recebe R$ 1.800 mais R$ 1.800 em auxílios da Câmara, apesar de a legislação proibir acúmulo de cargos públicos com horários incompatíveis.
Maria do Carmo Brito, ex-sogra de Nabor Wanderley, pai de Motta, recebe R$ 2.900 mais R$ 1.800 desde 2020, mas declarou em juízo, em 2021, ser apenas aposentada, sem mencionar o cargo na Câmara.
Após as denúncias, Motta ordenou a exoneração de Gabriela e Monique em 8 de julho, mas as demissões não foram publicadas até 15 de julho.
Louise permanece no cargo. As três servidoras receberam R$ 112 mil em 2025, incluindo salários, auxílios e gratificações. A assessoria de Motta afirmou que ele “preza pelo cumprimento rigoroso das obrigações dos funcionários, incluindo os que atuam remotamente”, mas não apresentou registros de ponto ou provas de trabalho.
A investigação, baseada na Lei de Acesso à Informação (LAI), revelou que a Câmara não registra entradas de servidores com crachá, delega o controle de frequência aos gabinetes e não exige ponto biométrico, facilitando esquemas de “funcionários fantasmas”. Essa ausência de transparência reforça a percepção de que o dinheiro dos contribuintes — que enfrentam uma carga tributária de 32,4% do PIB — é mal utilizado.
O escândalo é um golpe para Motta, cotado para o governo da Paraíba em 2026, onde enfrenta Cícero Lucena, :ucas Ribeiro, Adriano Galdino e Romero Rodrigues, e Pedro Cunha Lima. Na Paraíba, a denúncia alimentou críticas de adversários como Cabo Gilberto (PL), que chamou Motta de “símbolo do centrão corrupto”.
Adriano Galdino, aliado de Motta, mantém apoio, mas o caso pode enfraquecer o Republicanos, já pressionado pela rejeição de 68% de Motta (AtlasIntel). O envolvimento de Wilson Filho, aliado de João Azevêdo (PSB), complica ainda mais a base governista, que já enfrenta um racha para 2026.



