As declarações públicas de Azevêdo e as movimentações políticas indicam mais uma dificuldade de gerenciar ambições internas do que uma traição deliberada

A alegação de que o governador João Azevêdo (PSB) teria traído o prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena (PP), e o presidente da Assembleia Legislativa da Paraíba (ALPB), Adriano Galdino (Republicanos), na disputa pela sucessão estadual em 2026, circula em meios políticos e redes sociais, mas não encontra respaldo em fatos concretos. A narrativa, amplificada por setores da oposição e por especulações sobre um racha na base governista, sugere que Azevêdo estaria privilegiando o vice-governador Lucas Ribeiro (PP) como candidato ao governo, marginalizando Cícero e Galdino.
No entanto, as declarações públicas de Azevêdo e as movimentações políticas indicam mais uma dificuldade de gerenciar ambições internas do que uma traição deliberada.
A base de Azevêdo, que inclui PSB, PP, Republicanos, PT e aliados, garantiu sua reeleição em 2022 com 52,33% dos votos, mas enfrenta divisões crescentes para 2026. Cícero Lucena, reeleito prefeito com 63,91% em 2024, lidera as pesquisas mais recentes, enquanto Galdino e Lucas disputavam a indicação ao governo.
Hugo Motta (Republicanos), outro pré-candidato, perdeu força após o escândalo das funcionárias fantasmas, que envolveu R$ 807,5 mil pagos a servidoras sem comprovação de trabalho.
A ideia de “traição” ganhou força após Azevêdo, em visita ao Sertão, sugerir que Lucas Ribeiro, como vice-governador, seria o “candidato natural” caso ele renuncie para disputar o Senado. A declaração foi interpretada por aliados de Cícero e Galdino como uma tentativa de impor Lucas, desconsiderando a força eleitoral de ambos. O jornalista Nonato Guedes, em coluna no Polêmica Paraíba, apontou que Cícero “se tornou um dissidente” por rejeitar a imposição de Lucas, enquanto Galdino sinalizou um pacto com Cícero para disputar juntos, mesmo que fora da base governista.
Azevêdo tem refutado a narrativa de traição. Nesta segunda-feira (11), durante o lançamento do Paraíba World Beach Games, ele minimizou rumores de rompimento com Cícero, ironizando especulações sobre uma foto do prefeito com Cássio Cunha Lima (PSD): “Parece que agora fotografia vale mais do que certidão em cartório. Apareceu numa foto, já casou”. Ele defendeu a unidade da base, afirmando que “não vai forçar ninguém a ficar no grupo”, mas que os aliados devem avaliar os “ganhos” de permanecer juntos. Em 21 de julho, Cícero reforçou o alinhamento, descartando rompimento e defendendo um sucessor de consenso: “Não é hora de imposições”.
A aproximação entre Cícero e Galdino é o epicentro da narrativa de traição. Galdino afirmou que ambos estarão juntos “em qualquer cenário”, seja na base de Azevêdo ou na oposição, caso o Republicanos não garanta sua candidatura até dezembro. A foto de Cícero com Cássio Cunha Lima em 8 de agosto, durante evento em Campina Grande, alimentou especulações de um flerte com a oposição, liderada por Romero Rodrigues, Pedro Cunha Lima e Efraim Filho. O deputado Tovar Correia Lima (PSDB) chegou a prever uma vitória da oposição no primeiro turno se Cícero e Galdino romperem com Azevêdo.
Porém, Cícero negou qualquer ruptura, afirmando em 21 de julho que sua candidatura está “dentro da base aliada” e que apoia um consenso com Galdino e Lucas. Galdino, embora firme em sua postulação, também busca diálogo, como visto em sua visita a Caetés (PE), terra de Lula, em 15 de julho, reforçando seu alinhamento com o PT. Esses gestos sugerem que ambos pressionam Azevêdo por espaço, não que foram traídos.
A narrativa de traição é amplificada pela oposição, que vê no racha uma chance de vitória. O bolsonarismo, com Cabo Gilberto Silva (PL), e moderados como Efraim e Romero, capitalizam a insatisfação popular com Lula e casos como o escândalo das funcionárias fantasmas de Hugo Motta. A direita explora a ideia de “traição” para enfraquecer a base governista.
A base de Azevêdo enfrenta um racha real, mas a traição é mais um discurso político do que uma realidade. Cícero, com alta aprovação em João Pessoa, e Galdino, com a força da ALPB, são peças-chave que Azevêdo não pode perder. Lucas, apesar do isolamento relativo, conta com o apoio do seu tuo, o deputado Aguinaldo Ribeiro (PP), raposa velha em Brasília, e de sua mãe, a senadora Daniella Ribeiro, mas sua falta de densidade eleitoral o enfraquece.
A oposição, fortalecida pelo crescimento do bolsonarismo na Paraíba e pela rejeição a Lula e ao STF, tem chances reais se Cícero ou Galdino migrarem para seu lado. No entanto, Azevêdo mantém influência para negociar. A esquerda, fragmentada com o PT de Cida Ramos, perde força, enquanto o centrão (PP e Republicanos) domina, mas precisa de coesão.
A narrativa de traição de João Azevêdo a Cícero Lucena e Adriano Galdino é mais uma estratégia da oposição para explorar as tensões na base governista do que um fato comprovado. Azevêdo busca unidade, mas enfrenta dificuldades com as ambições de Cícero, Galdino, e Lucas, agravadas pelo desgaste de Motta. O pacto entre Cícero e Galdino é uma pressão por protagonismo, não uma prova de deslealdade do governador. Em 2026, com 52,3% de indecisos e a polarização em alta, a vitória dependerá de quem conseguir unificar forças — ou capitalizar melhor o racha alheio.



