Articulação entre prefeito de João Pessoa e presidente da ALPB redesenha cenário para 2026, enquanto vice-governador perde força

O suposto acordo entre o prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena (PP), e o presidente da Assembleia Legislativa da Paraíba (ALPB), Adriano Galdino (Republicanos), para as eleições ao governo da Paraíba em 2026, intensificou as tensões na base aliada do governador João Azevêdo (PSB), deixando o vice-governador Lucas Ribeiro (PP) cada vez mais isolado.
A movimentação sinaliza uma possível chapa conjunta entre os dois líderes, que estariam dispostos a disputar a sucessão estadual juntos, seja na base governista ou até mesmo na oposição, caso não consigam o aval de Azevêdo.
A proximidade entre Cícero e Galdino, evidenciada em eventos como o “esquenta” do Arraiá Balançando a Rede, em São Bento, expõe um racha que pode selar o destino da esquerda e do centrão na Paraíba. O que está em jogo nesse novo cenário político?
Durante a reunião em seu apartamento no bairro Mirante, em Campina Grande, Galdino foi categórico ao afirmar que será candidato ao governo em 2026 e que tem um entendimento com Cícero Lucena para estarem juntos “em qualquer cenário”. “Ou o Republicanos abraça minha candidatura até dezembro, ou saio para uma legenda da base de Lula. Cícero e eu estaremos alinhados”, declarou.
A fala reforça a sintonia vista em São Bento no dia 11 de julho, onde os dois apareceram juntos, ladeados pelo prefeito Gerfeson Carnaúba (PSB), em um evento que simbolizou mais do que cordialidade: uma aliança estratégica.
Cícero evita polêmicas, mas confirmou conversas com Galdino e defendeu critérios claros para a escolha do candidato governista, como pesquisas de opinião: “Quem decide é o eleitor”. Ele destacou a necessidade de “continuar o que está dando certo” na gestão de Azevêdo, mas não recuou de sua pré-candidatura, afirmando que não cederá sem argumentos sólidos.
A postura de Cícero, que lidera as pesquisas com 21,1% (ANOVA/PB Agora, 07/04/2025), e a determinação de Galdino, com 5,9%, formam um bloco de peso que marginaliza Lucas Ribeiro, que tem apenas 5% e depende da sucessão natural como vice-governador.
Galdino ampliou a pressão ao apontar um “conflito ideológico” na federação PP-União Brasil, que inclui Lucas e Cícero, mas se posiciona contra Lula, aliado de Azevêdo. “Não faz sentido o governador apoiar alguém que defende Bolsonaro ou Tarcísio de Freitas”, disse à Correio 98 FM (22/07), destacando que ele é o único pré-candidato alinhado ao presidente.
Essa narrativa isola Lucas, cuja federação com o União Brasil, liderada por Efraim Filho, pode forçar uma ruptura com o PSB.
Isolado na base
Lucas Ribeiro, que assumirá o governo em 2026 aposta na continuidade do projeto de Azevêdo, apoiado por sua mãe, a senadora Daniella Ribeiro (PP). No entanto, sua juventude (31 anos) e a falta de capilaridade política fora de Campina Grande enfraquecem sua posição.
A aproximação de Cícero com Galdino, que controla a maior bancada da ALPB, e a força de Cícero em João Pessoa, onde foi reeleito com 63,91% em 2024, reduzem o espaço de Lucas. “Podem apostar no racha, vão perder”, ironizou Lucas em 30 de abril, negando conflitos com Cícero, mas sua influência diminui à medida que o prefeito e Galdino consolidam um eixo próprio.
Azevêdo, que planeja concorrer ao Senado, tentou minimizar a crise, afirmando em 9 de julho que as candidaturas de Cícero, Galdino e Lucas são “naturais” e serão discutidas “de forma harmônica”. Contudo, sua neutralidade não contém as ambições.
O líder do governo na ALPB, Chico Mendes (PSB), defendeu em 20 de janeiro que todos os nomes, incluindo o secretário Deusdete Queiroga, são legítimos, mas pediu unidade.
A falta de consenso, porém, sugere que Lucas pode ser preterido, especialmente se Cícero e Galdino formalizarem uma chapa.
Hugo Motta, também do Republicanos, vê sua pré-candidatura perder força. Apesar do apoio inicial de Galdino e do “movimento espontâneo” de adesivos pró-Motta, o escândalo das funcionárias fantasmas, que custou R$ 807,5 mil ao erário, e sua rejeição de 68% (AtlasIntel, 07/03/2025) o enfraquecem.
Sua associação com Lula e Alexandre de Moraes e a resistência em pautar a anistia do 8 de janeiro alienam eleitores conservadores. Galdino, ao priorizar sua própria candidatura e se alinhar a Cícero, sinaliza que o Republicanos pode abandonar Motta, reforçando o domínio do centrão, mas com novos protagonistas.
A oposição, com Romero Rodrigues (Podemos), Pedro Cunha Lima (PSD), Efraim Filho (União Brasil) e Cabo Gilberto (PL), observa o racha governista como uma oportunidade. Efraim, que não descarta dialogar com Cícero, pode explorar a divisão, enquanto Romero capitaliza o bolsonarismo, fortalecido por casos como o “Julgamento de Débora”.
A eleição está aberta, mas a esquerda, atrelada a Lula com alto índice de desaprovação, e a base de Azevêdo, fragmentada, perdem terreno para o centrão e a direita.
O acordo entre Cícero Lucena e Adriano Galdino, embora não formalizado, é um divisor de águas na base governista da Paraíba. Ao unir a força política de João Pessoa e a capilaridade da ALPB, os dois líderes isolam Lucas Ribeiro, que depende da sucessão natural, mas carece de densidade eleitoral.
Azevêdo enfrenta uma “missão quase impossível” para evitar a derrota em 2026, enquanto o centrão se consolida como favorito, e a direita corre por fora. Em um estado onde escândalos como o das funcionárias fantasmas de Motta e a polarização nacional pesam, o racha governista pode entregar a vitória a quem souber capitalizar a insatisfação popular.



