Folia adaptada: 10 dicas para um Carnaval inclusivo e seguro para crianças autistas

Do ambiente caseiro aos blocos de rua, planejamento, previsibilidade e adaptação garantem uma experiência mais confortável, onde quer que a folia aconteça 

O Carnaval é um dos períodos mais animados do ano para os brasileiros, repleto de festas, cores e música. No entanto, para crianças com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), esse ambiente pode ser desafiador devido ao excesso de estímulos sensoriais, como o som alto e a presença de grandes multidões.  

“Isso acontece porque algumas crianças autistas apresentam hipersensibilidade sensorial, uma característica do Transtorno do Processamento Sensorial (TPS), que afeta a maneira como o sistema nervoso interpreta estímulos auditivos, táteis, visuais e vestibulares. Dependendo do caso, a pessoa pode perceber estímulos de forma intensificada ou precisar de um volume maior de estímulos para processá-los”, explica a Terapeuta Ocupacional e Orientadora Genial da Genial Care, Mariana Asseituno, 

No entanto, isso não significa que não seja possível os pequenos curtirem também esse período de alegria e diversão. Tornar essa celebração inclusiva para as crianças com TEA é algo que pode, e deve ser feito em casa ou na rua, mas que demanda planejamento e conhecimento de estratégias e dicas.

Por que o Carnaval pode ser uma tarefa difícil para as crianças atípicas?

O principal motivo da dificuldade e desconforto da época do ano é a grande quantidade de estímulos sensoriais.

“Quando uma criança possui essa condição sensorial, pode experimentar uma percepção exacerbada de estímulos ou necessitar de estímulos adicionais para perceber qualquer forma de sensação. Por isso, multidões, barulhos, luzes brilhantes, fantasias e um excesso de estímulos sensoriais ao mesmo tempo, podem criar sobrecarga sensorial e uma experiência desgastante” completa a Terapeuta Ocupacional.

Outro obstáculo é a mudança na rotina, que pode impactar diretamente a dinâmica familiar durante o feriado e criar angústias. Dessa forma, a previsibilidade é a chave para comunicar o que está por vir e também criar compreensão da criança sobre a época do ano.

Como aproveitar o Carnaval em casa?  

“Converse com a criança sobre a mudança na rotina utilizando suporte visuais que a ajudam a entender o que será feito de novo. Com isso é possível planejar atividades que tragam diversão e conforto. Um baile de Carnaval pode acontecer na sala, no quintal ou onde a imaginação permitir, com luzes suaves e coloridas para criar um clima agradável”, exemplifica Mariana.

Convide pessoas do círculo social da criança para participar e incentive fantasias, sempre respeitando preferências sensoriais – evite máscaras que cobrem o rosto, caso gerem desconforto. Também é possível fazer algumas brincadeiras, como:  

  • Adapte o espaço: reduza a intensidade da luz e dos sons para criar um ambiente aconchegante.
  • Cuidado com os estímulos: evite espuma e confetes, caso a criança tenha incômodos sensoriais.
  • Fantasias confortáveis: permita que a criança use a fantasia por cima de outra roupa ou escolha tecidos mais leves e confortáveis.
  • Brincadeiras lúdicas: explore danças livres, movimentos com fitas e pequenos instrumentos musicais, sempre respeitando o interesse da criança.

Dicas para aproveitar o Carnaval na rua com mais conforto e segurança

Antes de cair na folia, é importante se preparar para tornar a experiência mais tranquila. O Carnaval muda a rotina, e a agitação dos blocos pode ser intensa, especialmente para quem tem mais sensibilidade a estímulos. De acordo com a Terapeuta Ocupacional, pequenos cuidados podem garantir que a diversão aconteça de forma confortável e segura, veja a seguir:

1) Escolha blocos que combinam com a criança: se prefere um ambiente mais tranquilo, procure blocos infantis ou matinês, que costumam ser menos lotados ou é possível se afastar da agitação quando necessário. Algumas cidades já oferecem eventos especialmente adaptados para crianças autistas.

2) Reduza o impacto do barulho: mesmo que a criança não demonstre incômodo com sons altos, levar abafadores pode ser uma boa alternativa para evitar desconfortos inesperados. É importante testar o acessório antes e garantir que a criança esteja familiarizada com ele.

3) Priorize fantasias confortáveis: algumas crianças podem se incomodar com tecidos ásperos ou texturas diferentes. Teste as fantasias com antecedência e, se necessário, opte por roupas macias e coloridas que tragam conforto. O essencial é respeitar as preferências da criança.

4) Evite adereços desconfortáveis: máscaras, chapéu, óculos e tiaras podem causar estranhamento, tanto pelo estímulo visual quanto pelo contato tátil. O ideal é apresentar o acessório antes e, caso a criança não se sinta confortável, simplesmente não utilize.

5) Explique o que vai acontecer: criar um roteiro do evento, descrevendo cada etapa da experiência com narrativas sociais, pode ajudar a criança a se sentir mais segura e preparada.

6) Facilidade no acesso a banheiros: necessidades fisiológicas podem gerar estresse e crises comportamentais. Certifique-se de que há um banheiro próximo e fique atento aos sinais da criança.

7) Observe sinais de sobrecarga: além da sensibilidade sensorial, fatores como cansaço, fome e sono também podem impactar a experiência da criança. Caso perceba sinais de desconforto, priorize o bem-estar e evite prolongar a permanência no evento.

8) Facilite a comunicação: se a criança usa Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), leve os recursos necessários para que ela consiga expressar suas necessidades e emoções.

9) Crie um ambiente familiar: incluir amigos e familiares na experiência pode trazer mais segurança e conforto para a criança, tornando o momento mais agradável e previsível.

10) Monte um kit de conforto sensorial: leve objetos que ajudem a criança a se sentir mais segura e confortável durante o evento. Isso pode incluir brinquedos favoritos, fones de ouvido com músicas relaxantes, óculos escuros para reduzir a intensidade da luz, um pequeno ventilador portátil para aliviar o calor ou até um cobertor leve para momentos de sobrecarga. Ter itens familiares pode ajudar a criança a lidar melhor com os estímulos do ambiente e tornar a experiência mais agradável. 

O Carnaval pode ser um momento de alegria para todas as famílias, incluindo aquelas com crianças autistas. Com planejamento, respeito às necessidades sensoriais e adaptações adequadas, é possível tornar a experiência mais confortável e prazerosa, seja dentro de casa ou nos blocos de rua. Priorizar o bem-estar da criança, oferecer segurança e criar um ambiente previsível são passos essenciais para garantir que a folia seja inclusiva e especial. Afinal, a verdadeira celebração acontece quando cada criança pode participar do seu jeito, no seu ritmo e com conforto.

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