Presidente da Câmara dos Deputados, paraibano Hugo Motta, deve decidir relator de proposta que pode reduzir postos formais de trabalho em um estado onde famílias beneficiadas pelo Bolsa Família já superam o número de trabalhadores com carteira assinada, expondo grave contradição entre discurso e realidade local às vésperas de 2026

O presidente da Câmara dos Deputados, o paraibano Hugo Motta (Republicanos), deve definir esta semana o relator da PEC que propõe o fim da escala 6×1 no Brasil. A medida, defendida por setores do governo Lula, carrega um risco concreto: o aumento do desemprego formal em estados como a Paraíba, onde a economia ainda patina entre informalidade alta e forte dependência de programas de transferência de renda.
Dados atualizados do Novo Caged e do Ministério do Trabalho revelam a fragilidade do mercado de trabalho paraibano. Em novembro de 2025, o estado registrou 548 mil trabalhadores com carteira assinada (CLT). No acumulado de 2025, foram gerados 31.043 novos empregos formais — um número positivo, mas insuficiente para reverter a realidade estrutural.
A taxa de informalidade gira em torno de 49%, ou seja, quase metade da população ocupada vive sem direitos trabalhistas. Mais grave ainda: em fevereiro de 2026, 621.064 famílias paraibanas recebiam o Bolsa Família. Há mais famílias dependendo do programa social do que trabalhadores com carteira assinada.
Em Patos, berço político da família Motta, a situação é ainda mais ilustrativa. Com cerca de 108 mil habitantes, o município conta com apenas 16,1 mil empregos formais. O número de famílias beneficiadas pelo Bolsa Família oscila entre 15 mil e 16 mil — praticamente o mesmo patamar dos postos CLT. Ou seja, em sua própria base eleitoral, o modelo econômico já é mais assistencialista do que produtivo.
Diante desse quadro, a defesa de Hugo Motta à PEC do fim da escala 6×1 soa, no mínimo, paradoxal. Em vez de priorizar medidas que estimulem a geração de empregos, a redução da jornada sem contrapartidas econômicas tende a encarecer a folha de pagamento das empresas, especialmente no setor de serviços e comércio — um dos pilares da economia paraibana.
O resultado previsível é a redução de vagas formais, o aumento da informalidade e o crescimento da dependência de programas como o Bolsa Família.
Motta, que já acumula alta rejeição nacional e enfrenta críticas na Paraíba por sua proximidade com o governo federal, arrisca agravar o problema que deveria combater. Enquanto o estado precisa de políticas agressivas de atração de investimentos, formalização do trabalho e redução da burocracia, a PEC pode funcionar como um tiro no pé para milhares de paraibanos que dependem de empregos em shoppings, restaurantes, hotéis e call centers.
O momento exige responsabilidade. A Paraíba não pode se dar ao luxo de trocar empregos formais por mais assistencialismo. Hugo Motta tem a oportunidade — e a obrigação — de priorizar o desenvolvimento real do seu estado de origem, em vez de medidas que, embora populares em Brasília, podem aprofundar a vulnerabilidade econômica da Paraíba.
O eleitor paraibano, especialmente em 2026, certamente cobrará coerência entre o discurso nacional e o impacto local.


