quinta-feira, março 5, 2026
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OPINIÃO: a invasão do crime organizado na Paraíba e o risco de infiltração política

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Após dominar boa parte dos estados do Nordeste, o tráfico de drogas e armas avança na Paraíba; paraibanos precisam se mobilizar para barrar a contaminação da política local

O Nordeste brasileiro, outrora sinônimo de praias idílicas e cultura vibrante, transformou-se em um campo de batalha para facções criminosas que disputam territórios com a ferocidade de cartéis internacionais. Estados como Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Bahia já caíram sob o jugo de grupos como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), que controlam rotas de drogas, armas e até serviços básicos em comunidades inteiras.

Agora, a Paraíba emerge como o novo front dessa guerra silenciosa, com operações policiais recentes revelando uma expansão alarmante do crime organizado. É hora de os paraibanos reagirem — não só com repressão, mas com vigilância para impedir que o veneno do narcotráfico se infiltre na política estadual, corroendo as instituições e perpetuando o ciclo de violência.

A ascensão dessas facções no Nordeste não é casual. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 46 das 88 organizações criminosas ativas no Brasil estão concentradas na região, impulsionadas pela superlotação carcerária, fronteiras porosas e a ausência do Estado em áreas rurais e periféricas.

No Ceará, o CV domina Jericoacoara, transformando um paraíso turístico em ponto de distribuição de cocaína, com homicídios que explodiram 300% entre 2015 e 2023. No Rio Grande do Norte, o Sindicato do Crime, dissidência do PCC, controla Pipa, onde triplos assassinatos viraram rotina em avenidas badaladas. Pernambuco e Bahia, com o Bonde do Maluco e a Caveira, veem disputas que deixam rios de sangue e territórios isolados, onde o “imposto da facção” é cobrado até de ambulantes.

Na Paraíba, o avanço é sutil, mas inexorável. A facção local Okaida, com cerca de 6 mil membros e raízes nos anos 2000 como oposição ao grupo “Estados Unidos”, já controla presídios e bairros periféricos de João Pessoa, expandindo tentáculos para Pernambuco. Em 2025, operações como a Proteção (2 de outubro), que desarticulou núcleos rivais em Santa Luzia com 22 mandados e 150 policiais, e a Stakeholders II (18 de setembro), que atingiu setores financeiro e de comando em cinco cidades paraibanas, revelam a sofisticação do crime: lavagem de dinheiro via associações, tráfico de armas e homicídios motivados por disputas territoriais.

A Polícia Civil registrou uma queda de 15% em homicídios no Sertão após ações em abril, mas um crime em setembro reacendeu o alerta — sinal de que as facções se reorganizam rapidamente.

O que assusta mais é o potencial de infiltração na política. No Brasil, o crime organizado já corrompe eleições em favelas do Rio e periferias de São Paulo, financiando campanhas e intimidando eleitores. Na Paraíba, onde o racha governista entre João Azevêdo (PSB), Cícero Lucena (PP), Adriano Galdino (Republicanos) e Lucas Ribeiro (PP) domina as manchetes para 2026, o risco é real.

Escândalos como o das funcionárias fantasmas de Hugo Motta (R$ 807,5 mil desviados) e denúncias de propina no INSS (“roubo aos aposentados”, R$ 6,3 bilhões) mostram como brechas financeiras atraem o crime. Imagine facções como a Okaida financiando candidatos ou coagindo prefeitos no interior — um cenário que já ocorre no Ceará, onde vereadores são “batizados” pelo PCC.

Os paraibanos precisam reagir com urgência. A sociedade civil deve cobrar transparência nas contas de campanha, apoiar operações integradas como a “Nordeste Integrado” (que mobilizou 5 mil agentes em oito estados em 2025) e pressionar por investimentos em inteligência policial e programas sociais que tirem jovens das ruas.

O governador Azevêdo, com sua base rachada, deve priorizar a segurança sobre as disputas eleitorais, enquanto candidatos como Cícero e Galdino, que flertam com oposições, precisam se posicionar contra a leniência com o crime. A infiltração política não é inevitável, mas requer vigilância coletiva.

Se o Nordeste já sangra, a Paraíba não pode esperar para ser a próxima vítima — o povo paraibano, resiliente como o forró de Luiz Gonzaga, tem o dever de erguer a bandeira da legalidade antes que o crime organize o caos.